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‘Castelo’ do reino encantado das tardes de domingo não teria sido erguido sem o carisma e as canções de Roberto Carlos, rei da juventude até 1968. Imagem da exposição ‘Jovem Guarda 60 anos’, aberta hoje, 27 de fevereiro, em São Paulo no Museu da Imagem e do Som (MIS)
TV Record – Acervo MIS / Divulgação
♫ ANÁLISE E MEMÓRIA
♪ A exposição Jovem Guarda 60 anos – aberta hoje, 27 de fevereiro, pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo (SP) – joga luz sobre o primeiro movimento musical do universo pop brasileiro.
Entranhada na memória afetiva da música brasileira, a Jovem Guarda amplificou para todo o Brasil, a partir de 22 de agosto de 1965, data da estreia do programa apresentado pela TV Record nas tardes de domingo, uma onda de rebeldia adolescente detonada com a explosão mundial do grupo inglês The Beatles em 1964.
Só que essa rebeldia, a rigor, era sem causa social e gerou mudanças superficiais de comportamento, exemplificadas pela obstinação dos brotos da época em parecerem com Roberto Carlos (personificação do galã bem apessoado e romântico) – no caso dos rapazes às voltas com carrões pilotados em ritmo de aventura juvenil – ou com a musa Wanderléa, terna inspiração para os cabelos e os figurinos das meninas.
Entre Roberto e Wanderléa, havia Erasmo Carlos (1941 – 2022), símbolo da virilidade masculina, lapidada com (forjada) fama de mau e controlada pelo moral rígida da tradicional família brasileira. Tanto que o Tremendão chegou a ficar na mira da lei por suposto envolvimento com garotas menores de idade.
Sim, a reboque de um cancioneiro quase sempre pueril e muitas vezes aliciante pela simplicidade romântica, a Jovem Guarda promoveu revolução de costumes com a liberdade consentida pela sociedade brasileira. Mas nunca foi fundo nessa revolução. Tanto que, dentro do universo da Jovem Guarda, nunca se falou que o Brasil vivia sob ditadura instaurada em 1964. Ao contrário. Os ídolos do movimento pop agiam como se morassem em um reino encantado, longe da politização das canções da inflamada era dos festivais.
O programa Jovem Guarda foi exibido até 24 de outubro de 1968, mas já sem força no último ano. Sentindo que a onda já começava a baixar, Roberto Carlos saiu do comando da atração em janeiro de 1968, deixando vago o trono de rei da juventude brasileira para começar bem-sucedido processo de transição para o universo adulto da música romântica.
Mas Roberto também deixou canções. Grandes canções e rocks compostos com o parceiro Erasmo Carlos. É esse cancioneiro que fez com que a Jovem Guarda atravessasse gerações sem perder a aura de encantamento.
Sob prisma estritamente musical, é justo reconhecer que a Jovem Guarda criou ídolos, ditou modas, remodelou costumes e introduziu a guitarra elétrica na música brasileira para desespero da purista ala nacionalista que defendia um som brasileiro imune às influências do pop que dominava o mundo no embalo do iê-iê-iê romântico.
É também justo reconhecer, nessa ebulição musical, a genialidade do guitar hero Renato Barros (1943 – 2020), no exército da juventude, o toque fundamental do órgão do tecladista Lafayette Coelho (1943 – 2021) na arquitetura da sonoridade da Jovem Guarda, o pioneirismo do acento black posto no movimento pelo compositor Getúlio Côrtes – autor de músicas como Negro gato (1965), Eu só tenho um caminho (1971) e O tempo vai apagar (1968), esta em parceria com Paulo César Barros – e as contribuições individuais e pontuais de compositores como Luiz Ayrão (autor de Nossa canção e Ciúme de você, hits de 1966 e 1968 na voz de Roberto Carlos), Martinha (criadora da canção Eu daria a minha vida, de 1967) e Lilian Knapp (1948 – 2025), parceira de Renato Barros na balada Devolva-me (1966).
Não se faz um movimento sozinho. Mas o castelo do reino encantado da Jovem Guarda não teria sido erguido sem a força, sem o carisma e sem as canções do rei da juventude. A música de Roberto Carlos é a base sólida do movimento pela grandiosidade do cancioneiro composto com Erasmo.
A Jovem Guarda teve muitos ídolos. Erasmo, Wanderléa, Jerry Adriani (1947 – 2017), Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Leno & Lilian… Mas Roberto era o rei da juventude que mandou tudo para o inferno em 1965, na batida do rock, porque sofria por amor. Rei que, a rigor, sempre ambicionou o céu estrelado dos amantes apaixonados.
Sem o cancioneiro de Roberto e Erasmo Carlos, e sem algumas (eventuais) boas músicas de outros compositores, o repertório da Jovem Guarda soaria bastante irregular, posto que povoado por versões em português de baladas e rocks estrangeiros. Roberto e Erasmo impediram que o cancioneiro da Jovem Guarda soasse como mera xerox do repertório de Beatles e Cia.
Não é por acaso que, finda a Jovem Guarda, somente Roberto e Erasmo conseguiram se firmar para valer com obras autorais a partir dos anos 1970, década em que muitos ídolos do movimento migraram para o universo sertanejo, caso de Sérgio Reis, ou para o universo da música dita cafona, herdeira do sentimentalismo simplório do cancioneiro das jovens tardes de domingo.
É o apelo do repertório de Roberto Carlos – incluído aí também as canções de Getúlio Côrtes, Luiz Ayrão, Martinha e Renato Barros gravadas pelo cantor – que faz com que a Jovem Guarda chegue aos 60 anos no embalo de onda boa de nostalgia que se ergue pela exposição do MIS, calcada no acervo particular do jornalista Washington Morais, dono de expressiva arqueologia sobre esse movimento pop que gerou até gírias. E o tempo não vai apagar essa brasa, mora?