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Nesta série, o g1 conta os bastidores de composições que marcaram o Carnaval de Salvador. Escrita por Tatau, canção foi gravada pelo Grupo Olodum. VÍDEO: id 13372423
A expansão da AIDS no mundo, o Apartheid na África do Sul e a seca no sertão da Bahia são alguns dos problemas citados na música “Protesto do Olodum”, de Tatau. Gravada em 1988 pelo Grupo Olodum, a canção faz parte do álbum Núbia Axum Etiópia e é inspirada nas notícias dos jornais que o compositor consumia na época.
“Eu era muito atento às informações, assistia muita televisão e queria levar aquelas informações para algum lugar”, contou Tatau.
Para entender o contexto da música, também é preciso entender o cenário do Centro Histórico de Salvador onde o Grupo Olodum nasceu, em 1979. Os fundadores eram moradores da Rua do Maciel, local no Pelourinho que era conhecido como ponto de prostituição e tráfico de drogas. Por isso os versos “liberdade ao povo do Pelô” e “Pelourinho contra a prostituição”.
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Igor Santos/Secom PMS
A letra ainda cita a AIDS, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, que ocorre em estágios mais avançados da infecção pelo vírus HIV. A doença não tinha um tratamento adequado na época e era cerca de preconceitos, por isso o verso: “AIDS se expandiu (que coisa horrorosa, hein)/ E o terror já domina o Brasil (sim)”.
Além das menções relacionadas as notícias da época, Tatau usou o conhecimento para criar uma palavra: “nordestópia”, uma mistura de nordeste com Etiópia, na época um dos países mais pobres do mundo.
“A Etiópia vivia uma seca muito profunda na época e o Nordeste do Brasil também, então quis mostrar as semelhanças entre o país africano e a região brasileira”, explicou o autor da letra.
A seca de 1984 na Etiópia foi uma das piores da história do país e matou milhares de pessoas. No Nordeste, a seca teve seu pior ano do período em 1983 e uma reportagem do Fantástico mostrou que em não chovia em 1,4 mil municípios nordestinos há quatro anos, notícia que chamou a atenção de Tatau.
Tatau
Divulgação
Outro fato que despertou a curiosidade dele, a ponto de colocá-lo na música, foi a realidade de Cubatão, município do estado de São Paulo que já foi o mais poluído do mundo de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Na época, Cubatão era conhecida como “Vale da Morte”.
As citações de Nelson Mandela e Desmound Tuto estão diretamente relacionadas a luta contra o regime de segregação racial do Apartheid, implementada em 1948 na África do Sul. O regime só foi extinto em 1994, após quase 50 anos.
O arcebispo da Igreja Anglicana, Desmound Tutu, recebeu Prêmio Nobel da Paz em 1984 pela luta contra o Apartheid. Nelson Mandela ficou preso durante 27 anos por lutar contra o regime. Após ser libertado, se tornou presidente da África do Sul e também recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Apesar das diversas notícias um tanto quanto desanimadoras em relação ao mundo, Tatau completa o final de cada estrofe com a frase “e lá vou eu”. O objetivo é mostrar que, apesar dos problemas, se deve continuar a vida.
Para ele, o fato da canção continuar na boca do povo se deve a atualidade da letra. Apesar de ser um recorte dos anos 80, os problemas que estão nas entrelinhas, como preconceito e a poluição ambiental, seguem presentes na atualidade.
“São 40 carnavais e Protesto do Olodum continua sendo uma das músicas que não podem sair do repertório do axézeiro. Fico emocionado de ver que ela passa por gerações levando mensagens tão fortes”, disse.
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